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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A Última Viagem de Táxi.


Houve um tempo em que eu ganhava a vida como motorista de táxi. Os passageiros embarcavam totalmente anônimos. 

E, às vezes, me contavam episódios de suas vidas, suas alegrias e suas tristezas. 

Encontrei  pessoas que me surpreenderam. Mas, NENHUMA como aquela da noite de 25 para 26 de julho do último ano em que trabalhei na praça.

Havia  recebido já tarde da  noite uma chamada vinda  de um pequeno prédio  de tijolinhos, em uma  rua tranqüila, próximo  do Largo da Ordem  no São Francisco, centro  histórico de Curitiba,  capital do Paraná.  

Quando  cheguei ouvia cachorros  latindo longe. O prédio  estava escuro, com exceção  de uma única lâmpada  acesa numa janela do  térreo.
 


Nestas  circunstâncias, outros teriam  buzinado duas ou três  vezes, esperariam só  um pouco e, então,  iriam embora. 

Mas,  eu sabia que muitas  pessoas dependiam de  táxis como único meio  de transporte a tal  hora. 

A  não ser, portanto,  que a situação fosse  claramente perigosa, eu  sempre esperava.
 
"Este passageiro pode ser alguém que necessita de ajuda", pensei.

Assim,   fui até a porta  e bati. "Um  minutinho", respondeu  uma voz fraca e  idosa.  

Ouvi  alguma coisa ser arrastada  pelo chão... 
Depois  de uma pausa longa,   a porta abriu-se. 
Vi-me então diante de uma senhora bem idosa, pequenina e de frágil aparência.

 
Usava um vestido estampado e um chapéu bizarro daqueles usados pelas senhoras idosas nos filmes da década de 40! E se equilibrava numa bengala, enquanto segurava com dificuldade uma pequena mala. 



Dava  para ver que a  mobília estava toda  coberta com lençóis.   

Não haviam relógios,  roupas ou adornos sobre  os móveis. Num canto jazia uma caixa aberta  com fotografias e vidros.

A velha senhora, esboçando então um tímido sorriso de quem havia já perdido todos os dentes, pediu-me: “O senhor poderia me ajudar com a mala?” 

Eu peguei a mala e ajudei-a caminhar lentamente até o carro. E enquanto se acomodava ela ficou me agradecendo.
 
 -"Não é nada, apenas procuro tratar meus passageiros do jeito que gostaria que tratassem minha velha mãe”. 

-" Oh!, você é um bom rapaz!" Quando embarcamos, deu-me um  endereço e pediu: -"O  senhor poderia ir pelo  centro da cidade?" 


-"  Este não é o  trajeto mais curto",  alertei-a prontamente. 
-" Eu não me importo. Não estou com pressa. Meu destino é o último, o asilo dos velhos".

 
Surpreso,  eu olhei pelo retrovisor.
Os  olhos da velhinha brilhavam  marejados. 

-" Eu não tenho mais família e o médico me disse que tenho muito pouco tempo". 


Disfarçadamente desliguei o taxímetro  e perguntei: - "Qual  o caminho que a  senhora deseja que eu  tome?"

Nas horas seguintes nós  dirigimos por toda a  cidade. Ela mostrou-me  o edifício na Barão do Cerro Azul em que havia, em certa  ocasião, trabalhado como  ascensorista.  

Nós  passamos pelas cercanias  do Centro Cívico, em  que ela e o esposo  tinham vivido como recém-casados. 

E  também pela Pérpetuo  Soccoro no Alto da  Glória, onde iam sempre  e onde também comemoraram  Bodas de Ouro.
 
Ela  pediu-me que passasse em frente a uma loja na Dr. Muricy com a José Loureiro, que ela dizia ser um clube alemão, que tinha um grande salão de dança que ela  freqüentara quando mocinha.  

De vez em quando, pedia-me para dirigir vagarosamente  em frente a um edifício ou esquina. Era quando ficava então com os olhos  fixos na escuridão, sem dizer nada. E  olhava, olhava e suspirava...
 
E  assim rodamos a noite  inteirinha.
Passamos  por parques, praças, restaurantes, tudo o  que vinha vindo na  imaginação da doce  senhorinha.

Quando  o primeiro raio de  sol surgiu no horizonte,  ela disse de repente: "Estou cansada e pronta. Vamos agora!" 


Seguimos, então, em silêncio, para o endereço que ela havia me dado.  

Chegamos a uma casa comum no bairro do  Parolin, uma pequena  casa de repouso.

Duas atendentes caminharam até o táxi, assim que  paramos.  

Eram amáveis e atentas e logo se acercaram da velha  senhora, a quem pareciam  esperar. 

Eu abri o porta-malas do carro e levei a pequena valise até a porta. A senhora, já sentada em uma cadeira de rodas, perguntou-me então pelo custo da corrida.
 
-" Quanto lhe devo?", ela perguntou, pegando a bolsa.
  -"Nada!", eu disse. 
-" Você tem que ganhar a vida, meu jovem”

-"  Há outros passageiros",  respondi.
-  Mas ela insistiu, disse  que não precisava mais  de dinheiro, e colou  2.000 reais no meu  bolso da camisa. 

Eu não quis aceitar, mas ela foi incisiva ao  extremo, e e quase sem pensar, curvei-me e dei-lhe um abraço.  

Ela me envolveu comovidamente e devolveu-me com um beijo afetuoso e repleto  da mais pura e genuína gratidão e disse: - "Você deu a mim, bons momentos de alegria, como não tinha há  tanto tempo. 

Visitamos não só lugares, mas momentos que eu vivi. Só Deus é quem  sabe o quanto você fez por mim. Obrigada,  MEU AMIGO! Mil vezes  obrigada.”  
 

Apertei sua mão pela última vez e caminhei até o carro, na Brigadeiro Franco, onde ficava o asilo, e dirigi olhando o centro da cidade amanhecendo ao fundo e não conseguia  parar de chorar, e pensar como vivemos e ao que damos  valor, se daqui não  levamos nada.
 
Atrás de mim, uma moça  fechava o portão, e eu avistava ela e  outros velhinhos repousando  em cadeiras. 

Era como o som do término de uma vida... 
Naquele dia não peguei mais passageiros.


Fiquei  sem rumo, parei na  Av. Pres. Kennedy, perdido  nos meus pensamentos.  Mal podia falar. 

Dois dias depois, tomei coragem  e voltei no asilo  para ver como estava a minha mais nova amiga e quem sabe  passear com ela de  novo. 

Me disseram, então,  que na noite anterior,  seu coração parou  durante a noite, e  ela adormecera para  sempre, em paz e  feliz.
 
E fiquei a pensar, se a velhinha tivesse pego um motorista mal-educado e raivoso... Ou, então, algum que estivesse  ansioso para terminar  seu turno. 



Óh, Deus! E se eu houvesse recusado a corrida? Ou tivesse buzinado uma vez e ido embora?

Ao relembrar, creio que eu jamais tenha feito algo mais importante  na minha vida até  então.
 
Em geral nos condicionamos a pensar que nossas vidas são os objetivos e o futuro, mas ela gira em grandes  momentos.

Todavia, os GRANDES MOMENTOS freqüentemente nos pegam desprevenidos e ficam guardados em recantos que quase todo mundo considera sem importância, quando nos damos conta, já passou.

AS PESSOAS PODEM NÃO LEMBRAR EXATAMENTE O QUE VOCÊ  FEZ, OU O QUE VOCÊ  DISSE. 
 

MAS, ELAS SEMPRE LEMBRARÃO COMO VOCÊ AS FEZ  SENTIR-SE. 

PENSE BEM NISTO; PORTANTO, VOCÊ PODE FAZER A DIFERENÇA.

E OUTRA... OS IDOSOS DE HOJE, SOMOS NÓS AMANHÃ. 
Pare & Pense
Colaboração; Vera Pereira.

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