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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Pequena Vendedora de Fósforos

Que frio tão atroz!

Caía a neve, e a noite vinha por cima.

Era dia de Natal.

No meio do frio e da escuridão, uma pobre menina passou pela rua com a cabeça e os pés descobertos.

É verdade que tinha sapatos quando saiu de casa; mas não lhe serviram por muito tempo.

Eram uns tênis enormes que sua mãe já havia usado: tão grandes, que a menina os perdeu quando atravessou a rua correndo, para que as carruagens que iam em direções opostas não lhe atropelassem.

A menina caminhava, pois, com os pezinhos descalços, que estavam vermelhos e azuis de frio, levava no avental algumas dúzias de caixas de fósforos e tinha na mão uma delas como amostra.

Era um péssimo dia: nenhum comprador havia aparecido, e, por conseqüência, a menina não havia ganhou nem um centavo.

Tinha muita fome, muito frio e um aspecto miserável.

Pobre menina!

Os flocos de neve caiam sobre seus longos cabelos loiros, que caiam em lindos caracóis sobre o pescoço; porém, não pensava nos seus cabelos.

Via a agitação das luzes através da janela; sentia-se o cheiro dos assados por todas as partes.

Era dia de Natal, e nesta festa pensava a infeliz menina.

Sentou-se em uma pracinha, e se acomodou em um cantinho entre duas casas.

O frio se apoderava dela, e inchava seus membros; mas não se atrevia a aparecer em sua casa; voltava com todos os fósforos e sem nenhuma moeda.

Sua madrasta a maltrataria, e, além disso, na sua casa também fazia muito frio.

Viviam debaixo do telhado, a casa não tinha teto, e o vento ali soprava com fúria, mesmo que as aberturas maiores haviam sido cobertas com palha e trapos velhos.

Suas mãozinhas estavam quase duras de frio.

Ah! Quanto prazer lhe causaria esquentar-se com um fósforo!

Se ela se atrevesse a tirar só um da caixa, riscaria na parede e aqueceria os dedos!

Tirou um! Rich!

Como iluminava e como esquentava!

Tinha uma chama clara e quente, como de uma velinha, quando a rodeou com sua mão.
Que luz tão bonita!

A menina acreditava que estava sentada em uma chaminé de ferro, enfeitada com bolas e coberta com uma capa de latão reluzente.

Luzia o fogo ali de uma forma tão linda!

Esquentava tão bem!

Mas tudo acaba no mundo.

A menina estendeu seus pezinhos para esquentá-los também, mas a chama se apagou: não havia nada mais em sua mão além de um pedacinho de fósforo.

Riscou outro, que acendeu e brilhou como o primeiro; e ali onde a luz caiu sobre a parede, fez-se tão transparente como uma gaze.

A menina imaginou ver um salão, onde a mesa estava coberta por uma toalha branca resplandecente com finas porcelanas, e sobre a qual um peru assado e recheado de trufas exalava um cheiro delicioso.

Oh surpresa! Oh felicidade!

Logo teve a ilusão de que a ave saltava de seu prato para o chão, com o garfo e a faca cravados no peito, e rodava até chegar a seus pezinhos.

Mas o segundo fósforo apagou-se, e ela não viu diante de si nada mais que a parede impenetrável e fria.

Acendeu um novo fósforo.

Acreditou, então, que estava sentada perto de um magnífico nascimento: era mais bonito e maior que todos os que havia visto aqueles dias nas vitrines dos mais ricos comércios.

Mil luzes ardiam nas arvorezinhas; os pastores e pastoras pareciam começar a sorrir para a menina.

Esta, embelezada, levantou então as duas mãos, e o fósforo se apagou.

Todas as luzes do nascimento se foram, e ela compreendeu, então, que não eram nada além de estrelas.

Uma delas passou traçando uma linha de fogo no céu.

Isto quer dizer que alguém morreu pensou a menina; porque sua vovozinha, que era a única que havia sido boa com ela, mas que já não estava viva, havia lhe dito muitas vezes: "Quando cai uma estrela, é que uma alma sobe para o trono de Deus".

A menina ainda riscou outro fósforo na parede, e imaginou ver uma grande luz, no meio da qual estava sua avó em pé, e com um aspecto sublime e radiante.

-Vovozinha! - gritou a menina.

- Leve-me com você! Quando o fósforo se apagar, eu sei bem que não lhe verei mais!

Você desaparecerá como a chaminé de ferro, como o peru assado e como o formoso nascimento!

Depois se atreveu a riscar o resto da caixa, porque queria conservar a ilusão de que via sua avó, e os fósforos lhe abriram uma claridade vivíssima.

Nunca a avó lhe havia parecido tão grande nem tão bonita.

Pegou a menina nos braços, e as duas subiram no meio da luz até um lugar tão alto, que ali não fazia frio, nem se sentia fome, nem tristeza: até o trono de Deus.

Quando raiou o dia seguinte, a menina continuava sentada entre as duas casas, com as bochechas vermelhas e um sorriso nos lábios.

Morta, morta de frio na noite de Natal!

O sol iluminou aquele terno ser, sentado ali com as caixas de fósforos, das quais uma havia sido riscada por completo.

- Queria esquentar-se, a pobrezinha! - disse alguém.


Mas ninguém podia saber as coisas lindas que havia visto, nem em meio de que esplendor havia entrado com sua idosa avó no reino dos céus. 
Hans Christian Andersen.
Pare e Pense

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